sexta-feira, 1 de julho de 2011











Túlio Pinto | Compensação II | 2011 | cubos de aço e lâmina de vidro | 200 x 70 x 80 cm










Túlio Pinto | 2011 | Diagonal | 146 x 900 x 30 cm | blocos de concreto e tecido








DIAGONAL

Era uma vez um espaço infinito, constante e homogêneo. Inventado pelos homens do Renascimento, tornado visível pela perspectiva geométrica, ele podia ser percorrido em todos os sentidos, em quatro coordenadas ortogonais, expandir-se para todos os lados, sem barreiras, medido, representado. Abstrato, neutro, igual em todo lugar, assim como o tempo, parecia ser perene, estar lá para sempre, à nossa disposição, aos nossos pés. Mas eis que, ao invés dos belos príncipes dos contos de fadas, surgem aqui e ali, em momentos de perigo da história da arte, artistas que fazem o papel do cozinheiro da verdadeira história da Bela Adormecida, acordando todos no castelo com a bofetada que dá em seu aprendiz, fazendo também acordar a verdade (ou pelo menos um vislumbre dela) há tanto tempo adormecida. Esses artistas, com seus objetos, com suas ações, às vezes com estardalhaço, às vezes com uma sutileza quase silenciosa, nos fazem ver o que de tão óbvio passa desapercebido. Que o espaço não é esse cubo mágico de proporções infinitas, constante e transparente. É cheio de fendas, de obstáculos, de tensões, de pregnâncias. Ele é inconstante, mutável, dobradiço, assim como o tempo, esse seu irmão. Tulio Pinto é um desses artistas.

No trabalho que agora apresenta aqui no Museu de Ribeirão Preto, um ballet hard core se configura entre a grande banda laranja quando ela atravessa a sala e abraça duas placas de concreto, que podem ser vistos como dois bailarinos no ponto máximo de seu equilíbrio. Já não se sabe mais quem sustenta quem, se é o pano laranja que é estirado pelas placas, ou se são elas que não pendem pelo tensionar do tecido e o apoio da parede dado a uma delas. Um fluxo parece atravessar os objetos e dragar a sala para esse campo de energia que se forma, sustentando, dinamicamente, o conjunto. Não importa quantificar os esforços, o que importa é a resultante, que rasga o espaço e instaura ali uma dimensão inusitada, a potência de um lugar que não havíamos percebido: suas dimensões, suas qualidades de altura, largura, profundidade, a densidade do ar, a intensidade da iluminação. Tudo vem à tona, torna-se mais intenso e real com a presença desses elementos tão simples e brutos, arranjados de forma tão delicada, precisa e sutil. Esse espaço já não pode mais ser percebido como algo abstrato e homogêneo, mas como algo que precisa, impele, à experiência a ser percorrido, desdobrado, investigado e percebido com todos os sentidos em seu máximo alerta, num tempo dilatado e cheio de possibilidades. E o fazemos com alegria, mesmo se existirem sobressaltos, com aquele bem estar dos recém-sarados, dos enfermos que acabaram de restituir a saúde e ver a vida com olhos novos, ávidos. Esse espaço múltiplo, aberto (seja a bofetadas, seja num suave sopro) mostra que estamos, por ora, ainda, prontos, porque, enfim, vivos.

(esse texto plagia descaradamente o prefácio de Walter Benjamin para o Drama Barroco Alemão, espero, em nome da boa causa que carrega, ser perdoada por ele, lá naquele tempo infinito, inimaginável e imensurável)

Fernanda Pitta

Julho / 2011










Túlio Pinto | Linhas | Sp Arte 2011 | balões e gás hélio | foto: Anderson Astor










Túlio Pinto | Dispositivo Temporário I | 70 x 70 x 70 cm | cubo de aço e balão










Túlio Pinto | Dispositivo Temporário II | dimensões variáveis | cadeiras e balões










Túlio Pinto | Construção Temporária II | 2011 | 220 x 73 x 210 cm | compensado de pinus, dobradiças e balões









Túlio Pinto | Espera | 2011 | 160 x 128 x 80 cm | placas de concreto e balõe









Túlio Pinto, brasiliense radicado em Porto Alegre há uma década, trata da transformação das coisas pela ação do tempo. Ele estrutura a poética de seus trabalhos em estreita relação com as características dos materiais que utiliza. Peso, rigidez, fragilidade e elasticidade são os pontos focais de seu discurso visual. A potência metafórica surge, paradoxalmente, da precariedade e impermanência que instaura.

Interessa a Túlio explorar as metáforas embutidas nas leis da física, que agem nas delicadas paredes de látex das bexigas coloridas, pressionadas por grossas placas de concreto. A dinâmica desse convívio entre naturezas opostas e, mesmo assim, estranhamente complementares, estabelece um lugar imantado de tensões. Algo parece respirar, esgotar-se lentamente como um suspiro. Respiração agônica que precisa ser examinada com cuidado, várias vezes, em diversas ocasiões. Quase como quem ausculta com piedosa compaixão a nós mesmos, urbanóides cercados de pesadas estruturas do viver.

Angélica de Moraes

Setembro de 2010

Trecho do texto escrito para a exposição Paralelo 30 – Sesc Pompéia - SP










Túlio Pinto | Tempo | 2010 | 170 x 80 x 50 cm | bloco de concreto e balão









Túlio Pinto | Situação de encontro | 2010 | 105x100x125 cm | areia e lâmina de vidro










Túlio Pinto | Vetoriais - arranjo com 26 unidades | 2009 | 190 x 260 x 220 cm | 52 lâminas de vidro e fita antiderrapante










Túlio Pinto | Cumplicidade | 150 x 30 x 160 cm | blocos de concreto e lâmina de vidro










Túlio Pinto | Trajetórias Ortogonais | 2009 | dimensões variáveis | blocos de concreto e cubos de madeira








Matéria do mundo - matéria no mundo


“Penso que a significação da obra reside no esforço para realizá-la e não nas intenções que se tem. Este esforço é um estado de espírito, uma atividade, uma interação com o mundo”.
Richard Serra, 1973


Como que projetada do âmago da terra para suas superfícies, a obra de Túlio Pinto invade o espaço com matéria, espaço ora de exposição ou da própria natureza. Subverte a compreensão tradicional de objeto escultórico, dos seus materiais e da física e traz com isso vestígios indeléveis da história da arte. Impossível ignorar as remissões de seu trabalho às obras de Carl Andre e às dos minimalistas, ao refutar o esculpido e optar por cubos superpostos de madeira, cimento ou reluzentes placas de metal. Concede aos materiais o lugar da matéria da sua arte. Através deles transtorna a lógica modelada da escultura, nega o traço autográfico e traz estes materiais à experiência direta, em seu estado bruto, sem dissimulações. Esta matéria é a substância essencial destes trabalhos, através da qual Túlio transtorna a gravidade, testa a potência de sua resistência, discute o equilíbrio e seu latente estado de suspensão e distensão.
É obra em que a tensão é uma constante e faz extravasar o trabalho para muito além dos próprios materiais dispostos no espaço. Faz pulsar esta matéria no mundo, pois sugere transcender todas as fronteiras de sua delimitação nos lugares onde as obras se expandem. Força os limites das paredes até os tetos, através de barras de madeira construídas por blocos que se estendem pelos cantos da sala, como se fosse possível perfurar coberturas; invade estas paredes pela ilusão de espelhos que fazem desdobrar estas barras para além dos limiares do espaço, ao gerar sua continuidade impossível. Mas este estado de latência, como se sempre faltasse algo, leva o trabalho de Túlio para além do esperado. Sua obra cria ambientes inusitados, ao projetar-se na natureza através do estiramento de tecidos negros que levitam acima do solo, repuxados até seus limites, como sugados pelas forças invisíveis que se alastram em sua obra e discutem a matéria no mundo. A informação sensorial esbarra diante destes trabalhos, em uma situação de constante estranhamento; vê-se ela interrogada pelo abalo das certezas do conhecimento viciado; é incitada, ao contrário, a abrir-se às novas possibilidades da experimentação e à audácia de outras vias perceptivas que Túlio incita e deixa entrever em sua arte.
Esta obra move-se em direção à matéria no mundo, um estado de espírito, como diria Serra. Refuta o afastamento do senso de lugar e recupera-o, rejeita a substituição dos espaços físicos onde se situam nossos corpos e resgata-os através de sua sabedoria artística. Estes trabalhos clamam, enquanto matéria no mundo, a repropor a matéria do mundo. Nos lugares onde estas obras se tramam, o mundo é matéria - a que com intensa potência poética reconstrói um a um destes amortecidos espaços do mundo, em direção à sua libertação.
Mônica Zielinsky
Outubro de 2009




Túlio Pinto | Duas Grandezas | 2009 | dimensões variáveis | tecido, chapa de aço e cabo de aço | foto: Anderson Astor



Duas Grandezas - Galeria Iberê Camargo | Usina do Gasômetro – Porto Alegre | 2009


Num extremo da sala, quase na quina, no encontro das paredes, uma placa de aço, com tamanho de 1 m². A placa é quadrada e pende no espaço, inclinada em cerca de 45º em direção ao solo. Ela pesa 130 quilos e o que a mantém suspensa é um cabo de aço preso ao centro de uma de suas arestas. A linha atravessa a galeria, acompanhando o desenho da mesma, até chegar ao seu extremo diametralmente oposto, no qual uma estrutura de tecido, também no formato quadrado, é submetida à tensão da placa de metal. O tecido, uma elanca negra com propriedades elásticas acentuadas, tem 9 m2 e está totalmente preso à parede pelas bordas; a parte ligada ao cabo é a central, a que está no meio da dimensão do tecido. É ela, também, a que mais expressa os efeitos do retesamento entre as Duas Grandezas que dão título à instalação que Túlio Pinto apresenta na Galeria Iberê Camargo, em Porto Alegre. A descrição sumária simplifica e parece esclarecer formalmente a proposta do artista. Ledo engano.

Como escultor, Túlio está permanentemente atento às relações entre os corpos e o espaço. E, sobretudo, em como as propriedades dos materiais muitas vezes definem essas relações. É o que vemos em seus trabalhos recentes, a grande maioria inédita e montada unicamente no Atelier Subterrânea, espaço que divide com outros cinco jovens artistas. Estruturas de concreto, madeira, cabos e chapas de aço são seus materiais primordiais, que vão sendo articulados, desmontados e novamente organizados de múltiplas formas, na criação de trabalhos que discutem substancialmente as mesmas questões. Em Linha de Terra de 2008, por exemplo, o artista encaixou duas placas de aço (80 x 80 cm e 130 x 80 cm, com 1 cm de espessura cada), mantendo uma na vertical e outra levemente inclinada. Em cada placa, uniu 8 pequenos cubos de concreto (todos com 10 cm de aresta), mantidos em suspensão, como uma linha, graças a estais de aço. Não há, portanto, qualquer tipo de solda ou dispositivo que “garanta” a plena estabilidade das peças, a não ser o jogo entre pesos, medidas e materiais.

Já em Trajetórias Ortogonais, obra decorrente desta primeira, a ser apresentada, em breve, no Instituto Goethe de Porto Alegre, a dinâmica parte do liame entre a madeira e o concreto. Introduzindo uma discussão que tangencia o campo da arquitetura, Túlio montou, no canto de uma sala, partindo do teto em direção ao solo, até uma altura de aproximadamente 1 metro, um “L”, cuja haste menor projeta-se em 45º das paredes ortogonais, estabelecendo um ritmo e relação com as vigas do prédio. Este “L”, no entanto, é feito a partir da justaposição de pequenos blocos soltos de madeira, mantidos na posição original pelo apoio e pressão exercida, em diagonal, de três vigas de concreto. Nada mais. Delicadíssimo equilíbrio, suscetível de vigorosos e ruidosos desmoronamentos, que tantas vezes acontecem, mas que também fazem parte do processo e dos interesses do artista.

Os dois trabalhos rapidamente descritos se estruturam a partir da inter-relação entre pares de materiais e de forças. O mesmo acontece em Duas Grandezas. Na instalação temos, de um lado, aço e, de outro, tecido; de um lado peso e, de outro, leveza; de um lado uma placa de 1 m2 e, de outro, uma extensão pelo menos nove vezes maior. Ligando-as, apenas um cabo de aço, que tanto faz o balanço entre as partes, como acompanha as linhas da sala, sugerindo uma grade imaginária. Observando o cenário montado, podemos supor o que acontecerá: paulatinamente, procurando manter a estabilidade da placa de metal, o tecido se deformará. Talvez essa transmutação seja acentuada nos primeiros dias e, depois, estabilize; talvez, pelo contrário, ela se evidencie apenas com o passar do tempo, fazendo surgir um volume onde só havia superfície, bem como um novo desenho no espaço, evidenciado pelo contraste entre o negro do tecido e o branco da galeria. Nesse jogo de forças, perguntas ecoam: até que ponto o tecido se retesará para manter a placa no ar? Ou, ainda: que preço ele pagará para manter esse tão bem estruturado, porém frágil, vínculo? Talvez o tecido venha a perder muitas de suas propriedades, como a resistência de suas tramas; talvez, pelo contrário, ele se permita a experiência da deformação para, mais tarde, retornar ao estado original transformado. Tudo uma questão de tempo... De quanto tempo os materiais ficarão expostos ao estiramento; de quanto tempo os materiais precisam para chegar ao perfeito equilíbrio, ou ao seu aniquilamento. A situação criada sugere conseqüências, mas estas também podem ser imprevisíveis. Neste e em tantos outros pontos, percebe-se na poética de Túlio a referência à monumental obra de Nelson Felix, um dos nomes basilares da escultura contemporânea brasileira.

Assim como Felix, Túlio propõe situações que escapam aos desdobramentos cotidianos. E, nesse procedimento, o viés simbólico evidentemente desponta. Se, num primeiro momento, diante de suas obras, somos tomados pelo encanto formal provocado pelas contraposições entre tão distintos materiais e pelos requintados desenhos no espaço, num segundo estágio a indefinição das relações estabelecidas nos remete à nossa própria realidade. Muitas são as dimensões sugestivas de seu trabalho, mas talvez a mais evidente nos provoque a pensar, inclusive, do que são feitas não apenas as estruturas que nos rodeiam, mas nossos próprios alicerces, certezas e relações, reforçando a idéia centenária de Karl Marx, de que tudo que é sólido desmancha no ar...

Paula Ramos Jornalista e crítica de arte

Porto Alegre, maio de 2009