sexta-feira, 1 de julho de 2011




Túlio Pinto | Duas Grandezas | 2009 | dimensões variáveis | tecido, chapa de aço e cabo de aço | foto: Anderson Astor



Duas Grandezas - Galeria Iberê Camargo | Usina do Gasômetro – Porto Alegre | 2009


Num extremo da sala, quase na quina, no encontro das paredes, uma placa de aço, com tamanho de 1 m². A placa é quadrada e pende no espaço, inclinada em cerca de 45º em direção ao solo. Ela pesa 130 quilos e o que a mantém suspensa é um cabo de aço preso ao centro de uma de suas arestas. A linha atravessa a galeria, acompanhando o desenho da mesma, até chegar ao seu extremo diametralmente oposto, no qual uma estrutura de tecido, também no formato quadrado, é submetida à tensão da placa de metal. O tecido, uma elanca negra com propriedades elásticas acentuadas, tem 9 m2 e está totalmente preso à parede pelas bordas; a parte ligada ao cabo é a central, a que está no meio da dimensão do tecido. É ela, também, a que mais expressa os efeitos do retesamento entre as Duas Grandezas que dão título à instalação que Túlio Pinto apresenta na Galeria Iberê Camargo, em Porto Alegre. A descrição sumária simplifica e parece esclarecer formalmente a proposta do artista. Ledo engano.

Como escultor, Túlio está permanentemente atento às relações entre os corpos e o espaço. E, sobretudo, em como as propriedades dos materiais muitas vezes definem essas relações. É o que vemos em seus trabalhos recentes, a grande maioria inédita e montada unicamente no Atelier Subterrânea, espaço que divide com outros cinco jovens artistas. Estruturas de concreto, madeira, cabos e chapas de aço são seus materiais primordiais, que vão sendo articulados, desmontados e novamente organizados de múltiplas formas, na criação de trabalhos que discutem substancialmente as mesmas questões. Em Linha de Terra de 2008, por exemplo, o artista encaixou duas placas de aço (80 x 80 cm e 130 x 80 cm, com 1 cm de espessura cada), mantendo uma na vertical e outra levemente inclinada. Em cada placa, uniu 8 pequenos cubos de concreto (todos com 10 cm de aresta), mantidos em suspensão, como uma linha, graças a estais de aço. Não há, portanto, qualquer tipo de solda ou dispositivo que “garanta” a plena estabilidade das peças, a não ser o jogo entre pesos, medidas e materiais.

Já em Trajetórias Ortogonais, obra decorrente desta primeira, a ser apresentada, em breve, no Instituto Goethe de Porto Alegre, a dinâmica parte do liame entre a madeira e o concreto. Introduzindo uma discussão que tangencia o campo da arquitetura, Túlio montou, no canto de uma sala, partindo do teto em direção ao solo, até uma altura de aproximadamente 1 metro, um “L”, cuja haste menor projeta-se em 45º das paredes ortogonais, estabelecendo um ritmo e relação com as vigas do prédio. Este “L”, no entanto, é feito a partir da justaposição de pequenos blocos soltos de madeira, mantidos na posição original pelo apoio e pressão exercida, em diagonal, de três vigas de concreto. Nada mais. Delicadíssimo equilíbrio, suscetível de vigorosos e ruidosos desmoronamentos, que tantas vezes acontecem, mas que também fazem parte do processo e dos interesses do artista.

Os dois trabalhos rapidamente descritos se estruturam a partir da inter-relação entre pares de materiais e de forças. O mesmo acontece em Duas Grandezas. Na instalação temos, de um lado, aço e, de outro, tecido; de um lado peso e, de outro, leveza; de um lado uma placa de 1 m2 e, de outro, uma extensão pelo menos nove vezes maior. Ligando-as, apenas um cabo de aço, que tanto faz o balanço entre as partes, como acompanha as linhas da sala, sugerindo uma grade imaginária. Observando o cenário montado, podemos supor o que acontecerá: paulatinamente, procurando manter a estabilidade da placa de metal, o tecido se deformará. Talvez essa transmutação seja acentuada nos primeiros dias e, depois, estabilize; talvez, pelo contrário, ela se evidencie apenas com o passar do tempo, fazendo surgir um volume onde só havia superfície, bem como um novo desenho no espaço, evidenciado pelo contraste entre o negro do tecido e o branco da galeria. Nesse jogo de forças, perguntas ecoam: até que ponto o tecido se retesará para manter a placa no ar? Ou, ainda: que preço ele pagará para manter esse tão bem estruturado, porém frágil, vínculo? Talvez o tecido venha a perder muitas de suas propriedades, como a resistência de suas tramas; talvez, pelo contrário, ele se permita a experiência da deformação para, mais tarde, retornar ao estado original transformado. Tudo uma questão de tempo... De quanto tempo os materiais ficarão expostos ao estiramento; de quanto tempo os materiais precisam para chegar ao perfeito equilíbrio, ou ao seu aniquilamento. A situação criada sugere conseqüências, mas estas também podem ser imprevisíveis. Neste e em tantos outros pontos, percebe-se na poética de Túlio a referência à monumental obra de Nelson Felix, um dos nomes basilares da escultura contemporânea brasileira.

Assim como Felix, Túlio propõe situações que escapam aos desdobramentos cotidianos. E, nesse procedimento, o viés simbólico evidentemente desponta. Se, num primeiro momento, diante de suas obras, somos tomados pelo encanto formal provocado pelas contraposições entre tão distintos materiais e pelos requintados desenhos no espaço, num segundo estágio a indefinição das relações estabelecidas nos remete à nossa própria realidade. Muitas são as dimensões sugestivas de seu trabalho, mas talvez a mais evidente nos provoque a pensar, inclusive, do que são feitas não apenas as estruturas que nos rodeiam, mas nossos próprios alicerces, certezas e relações, reforçando a idéia centenária de Karl Marx, de que tudo que é sólido desmancha no ar...

Paula Ramos Jornalista e crítica de arte

Porto Alegre, maio de 2009

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